As novas mudanças do PIX e o impacto na sua conciliação

As novas mudanças do PIX e o impacto na sua conciliação

O Pix completou cinco anos de operação e se firmou como a espinha dorsal dos pagamentos no Brasil. O Banco Central divulgou o Relatório de Gestão do Pix 2023–2025 com um retrato do tamanho que a ferramenta já alcançou, além de um mapa das mudanças que ainda estão por vir.


Os números de 2025, em resumo:

  • R$ 35,36 trilhões movimentados no ano: alta de 33,6% sobre 2024
  • Quase 80 bilhões de transações realizadas
  • 148 milhões de pessoas físicas e 12,8 milhões de empresas usaram o sistema
  • Mais de 920 milhões de chaves Pix cadastradas
  • Recorde diário em 5 de dezembro de 2025, com 313,3 milhões de operações em 24 horas

Para o departamento financeiro, esse crescimento não é só um número, mas um volume de dados que precisa ser conciliado, todos os dias, com precisão. E o Banco Central sinaliza que esse volume vai ficar ainda mais complexo.

Por que o Pix está mudando

O sistema nasceu para transferências simples entre pessoas físicas, mas hoje sustenta folha de pagamento, cadeias de suprimentos e liquidações B2B de alto valor. Funcionalidades como Pix Cobrança, Pix Saque, Pix Agendado e Pix por Aproximação já ampliaram o uso em PDVs, e-commerces e rotinas de tesouraria, abrindo caminho para a próxima leva de novidades.

Essa expansão trouxe uma pressão direta sobre as empresas: padronizar dados, reforçar segurança e integrar o Pix aos processos internos, sob pena de a conciliação virar um problema.

Novas funcionalidades em estudo pelo Banco Central

1. Cobrança híbrida

Um único documento vai poder reunir boleto tradicional (código de barras) e QR Code Pix, com as mesmas regras de juros, multas e descontos.

  • Elimina a emissão duplicada de cobranças para agradar diferentes perfis de pagador
  • Dá baixa automática em uma modalidade quando a outra é paga
  • Simplifica a rastreabilidade do contas a receber, independentemente do canal escolhido

2. Pix para quitação de duplicatas

Liquidação de duplicatas mercantis ou de serviço em tempo real, com baixa automática nos sistemas registradores de recebíveis.

  • Reduz o intervalo entre pagamento e liberação de crédito (hoje sujeito a D+1 ou D+2 via boleto/TED)
  • Acelera o giro de estoque em cadeias de distribuição
  • Diminui a burocracia na gestão do capital de giro

3. Split tributário

Separação automática, no momento da transação, entre o valor líquido do fornecedor e os tributos devidos, conectado à Reforma Tributária e ao novo IVA dual (CBS/IBS).

  • O próprio sistema de pagamentos roteia os valores ao ente federativo correto
  • Elimina a necessidade de guias de recolhimento manuais
  • Reduz o risco de multas por atraso e erros de apuração fiscal

4. Pix Internacional

Conexões bilaterais e multilaterais com sistemas de pagamento instantâneo de outros países.

  • Câmbio mais transparente e liquidação em tempo real
  • Reduz custo e demora das redes tradicionais de correspondentes bancários
  • Beneficia diretamente importadores, exportadores e prestadores de serviço com clientes no exterior

5. Pix em garantia

“Dinheiro programável”: um valor fica bloqueado na conta do usuário, vinculado a uma obrigação contratual, com liberação automática conforme o cumprimento (ou não) das cláusulas.

  • Alternativa ao bloqueio em cartão de crédito ou ao depósito caução tradicional
  • Aplicável a locação de veículos, mercado imobiliário e operações de crédito
  • Dá liquidez imediata ao credor e devolução rápida ao tomador ao final do contrato

6. Pix por aproximação sem internet (novidade)

Um projeto ainda mais adiante na agenda do BC (previsto para 2027 em diante) busca permitir que o pagamento por aproximação funcione mesmo com o celular do pagador offline, além de ampliar os dispositivos compatíveis com NFC para além do smartphone (relógios, pulseiras, cartões).

  • Não deve ser confundido com o Pix por aproximação já disponível hoje, que depende de conexão online
  • Amplia o alcance do Pix para regiões com conectividade instável

Segurança reforçada: o que está em discussão

1. Uso indevido do campo de descrição

O campo criado para informações objetivas sobre o pagamento passou a ser usado, em alguns casos, para mensagens ofensivas, ameaças e assédio, inclusive em transferências de valores baixos.

  • Grupo de trabalho criado em 2026 no Fórum Pix, com participação de associações do setor
  • Discussão sobre filtros semânticos com inteligência artificial e responsabilização das instituições
  • Possível regulamentação futura para restringir esse uso

2. Padronização nacional de alertas de golpe

Hoje, cada banco ou fintech alerta o cliente de um jeito diferente sobre uma transação suspeita, o que confunde o usuário e é explorado por golpistas.

  • Meta: critérios mínimos e experiência uniforme em todo o Sistema Financeiro Nacional
  • Padronização de taxonomia de risco, comunicação e fluxos de bloqueio cautelar

3. Indicador de fraude em tempo real (novidade)

O Banco Central desenvolve um modelo de machine learning capaz de calcular, no momento da transação, a probabilidade de ela ser fraudulenta, para servir de insumo aos sistemas antifraude dos bancos.

  • Ainda depende de testes técnicos e avaliação jurídica antes de qualquer liberação
  • Complementa a padronização de alertas e a maior atuação do BC no bloqueio de chaves suspeitas

4. Contestação de Pix simplificada

Desde outubro de 2025, um botão nativo nos aplicativos bancários permite sinalizar fraude, falha sistêmica ou desacordo comercial, acionando automaticamente o Mecanismo Especial de Devolução (MED).

  • Reduz a dependência de boletim de ocorrência e atendimento manual
  • Dá à tesouraria visibilidade em tempo real sobre o status de estornos

O que isso muda na conciliação financeira da sua empresa

Com mais funcionalidades operando em paralelo, uma única transação pode gerar vários eventos contábeis simultâneos:

  • Reconhecimento da receita líquida
  • Provisionamento ou pagamento do imposto retido na fonte (split tributário)
  • Baixa do título a receber (duplicatas)
  • Eventuais reversões via MED (contestação)

Sem uma tecnologia que correlacione esses eventos automaticamente, o financeiro perde visibilidade sobre recebíveis e posição de caixa, e a conferência manual de extratos deixa de ser viável.

Na prática, isso exige:

  • ERP e BI capazes de acompanhar o Pix em tempo real
  • Conciliação automatizada, não pontual
  • Processos fiscais e contábeis já adaptados às novas regras, antes que elas entrem em vigor

Conclusão

A agenda do Banco Central deixa claro que o Pix vai continuar evoluindo em casos de uso, em segurança e em integração com a Reforma Tributária. Vale lembrar que parte dessas iniciativas ainda está em fase de estudo e não tem data de lançamento definida, mas o sentido da mudança é explícito: mais funcionalidades, mais dados e mais exigência de automação no backoffice.

Para empresas de todo o Brasil, acompanhar essa evolução não é mais opcional, já que garante controle sobre o fluxo de caixa e vantagem competitiva frente à concorrência.

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